Suplementos para saúde sexual masculina: o que é real

Men’s sexual health supplements: o que funciona, o que é mito e onde mora o risco

“Men’s sexual health supplements” virou uma expressão-guarda-chuva. Cabe de tudo ali dentro: vitaminas, minerais, extratos de plantas, aminoácidos, fórmulas “pré-treino” reembaladas e, em alguns casos, até fármacos escondidos. Na prática clínica, eu vejo esse tema aparecer por dois caminhos bem diferentes. Um é legítimo: homens tentando lidar com queda de desejo, cansaço, ansiedade de desempenho, disfunção erétil leve, ou simplesmente a sensação de que o corpo já não responde como antes. O outro é mais preocupante: gente saudável, sem queixa médica clara, comprando promessas de “potência” e “testosterona” como se fossem atalhos sem custo.

O problema não é falar de sexualidade. Pelo contrário. A sexualidade é parte da saúde, e qualidade de vida conta. O problema é a confusão entre suplemento e medicamento, entre marketing e evidência, entre “natural” e “seguro”. O corpo humano é bagunçado. Ereção depende de vasos sanguíneos, nervos, hormônios, sono, humor, relacionamento, álcool, remédios… e de um detalhe pouco glamouroso: circulação. Quando alguém me pergunta “qual suplemento é o melhor?”, eu quase sempre devolvo com outra pergunta: “melhor para quê, exatamente?”

Neste artigo, vou organizar o assunto com calma e sem propaganda: o que os suplementos para saúde sexual masculina tentam fazer, quais ingredientes têm plausibilidade biológica, onde a evidência é fraca, quais riscos aparecem com frequência (inclusive interações), e por que tanta gente se frustra. Também vou separar claramente suplementos de tratamentos farmacológicos consagrados — como sildenafila, tadalafila, vardenafila e avanafil (classe terapêutica: inibidores da PDE5; uso principal: disfunção erétil; outros usos conhecidos: hipertensão arterial pulmonar para sildenafila/tadalafila, e sintomas urinários da hiperplasia prostática benigna para tadalafila). Eles não são “suplementos”, mas entram na conversa o tempo todo — e entender essa diferença evita erro e susto.

O objetivo aqui é informação. Sem dose, sem “protocolo”, sem receita pronta. Se você sair deste texto com uma ideia, que seja esta: quando o assunto é sexo, a internet vende certezas; a medicina trabalha com probabilidades, limites e segurança.

1) Aplicações médicas: o que os “suplementos” prometem e o que a medicina realmente trata

1.1 Indicação principal (na prática): suporte a queixas sexuais inespecíficas

Suplementos voltados à saúde sexual masculina costumam mirar quatro alvos: ereção, libido, energia/disposição e “testosterona”. Repare que isso não é um diagnóstico; é um conjunto de sintomas e expectativas. Na consulta, a história costuma ser mais concreta: ereções menos rígidas, dificuldade de manter a ereção, queda de desejo após estresse crônico, piora após ganho de peso, ou um período de insônia que bagunçou tudo. Às vezes, o gatilho é um remédio (antidepressivos, anti-hipertensivos, finasterida, entre outros). Outras vezes, é um relacionamento em crise. E, com frequência, é uma mistura.

O que a medicina trata com clareza é a disfunção erétil como condição clínica, sobretudo quando há componente vascular, metabólico ou neurológico. A disfunção erétil também pode ser um sinal precoce de doença cardiovascular. Eu já perdi a conta de quantas vezes uma queixa sexual abriu a porta para diagnosticar hipertensão, diabetes ou apneia do sono. Suplemento nenhum substitui essa investigação.

Então, qual seria o “uso realista” dos suplementos? Em termos médicos, eles entram como coadjuvantes quando há deficiência nutricional documentada, quando o homem está ajustando estilo de vida e quer uma estratégia de baixo risco (desde que o produto seja confiável), ou quando a queixa é leve e flutuante. Eles não “curam” disfunção erétil moderada a grave, não revertem aterosclerose e não consertam ansiedade de desempenho sozinhos. Pacientes me contam, com uma sinceridade quase engraçada, que esperavam um efeito “tipo filme”. A fisiologia não funciona assim.

Se você quer entender a diferença entre queixa sexual e diagnóstico, vale ler também nosso guia sobre disfunção erétil: causas e avaliação clínica. Isso muda o jogo.

1.2 Quando o tratamento farmacológico entra (e por que isso não é “falha”)

Existe um motivo para os inibidores da PDE5 (sildenafila, tadalafila, vardenafila, avanafil) serem tão conhecidos: eles têm eficácia comprovada para disfunção erétil em muitos cenários, com mecanismo bem entendido e perfil de segurança estabelecido quando bem indicados. Eles não aumentam desejo por mágica, não criam excitação do nada, e não resolvem conflitos emocionais. Eles facilitam a resposta vascular do pênis ao estímulo sexual. Simples. E, ao mesmo tempo, sofisticado.

Na vida real, vejo dois erros comuns. O primeiro é o homem que evita qualquer medicamento por medo ou vergonha e se prende por anos a suplementos caros e inconsistentes. O segundo é o homem que compra “suplemento” online e, sem saber, ingere um PDE5 escondido na fórmula. Esse segundo cenário é perigoso, porque a pessoa não tem ideia do que tomou, nem do risco de interação com nitratos, por exemplo.

Não existe medalha por sofrer em silêncio. Quando há disfunção erétil persistente, a conversa com um profissional de saúde costuma ser mais eficiente do que a maratona de cápsulas.

1.3 Outros usos conhecidos (fora do rótulo “sexual”)

É comum confundir “remédio para ereção” com “remédio para sexo”. Na verdade, alguns fármacos associados à sexualidade têm indicações bem diferentes. A sildenafila e a tadalafila também são usadas em hipertensão arterial pulmonar (em apresentações e esquemas específicos). A tadalafila tem indicação para sintomas urinários da hiperplasia prostática benigna. Isso não significa que todo homem com sintomas urinários precise dela, nem que suplemento “para próstata” tenha efeito semelhante. São mundos distintos.

Já no universo dos suplementos, aparecem alegações de “fertilidade”, “qualidade do esperma” e “saúde da próstata”. Aqui, a evidência varia muito. Antioxidantes e alguns micronutrientes têm estudos em subgrupos, mas resultados são heterogêneos e dependem de causa, tempo, hábitos e qualidade do estudo. Quando o casal está tentando engravidar, eu prefiro uma abordagem organizada: avaliação clínica, exames quando indicados, e só então discutir suplementos com objetivo claro. Para isso, temos um material separado sobre infertilidade masculina e fatores modificáveis.

1.4 Usos “off-label” e experimentais: onde a conversa fica escorregadia

Suplementos não têm “off-label” no mesmo sentido de medicamentos, porque não passam pelo mesmo processo regulatório de indicação terapêutica. Mesmo assim, o mercado se comporta como se tivesse. Ingredientes são empilhados com promessas de “óxido nítrico”, “vasodilatação”, “testosterona livre”, “dopamina”, “sensibilidade”. A ciência por trás disso, quando existe, costuma ser indireta: estudos pequenos, populações específicas, desfechos subjetivos, ou extrapolações de mecanismos.

Na fronteira experimental, aparecem compostos como peptídeos, “pró-hormônios”, moduladores hormonais disfarçados e misturas importadas. Aqui eu fico mais duro: isso não é suplemento inocente; é farmacologia sem controle. E o preço pode ser alto — do fígado ao coração, passando por ansiedade, insônia e disfunção sexual paradoxal.

2) O que há dentro: ingredientes comuns e o que a evidência sugere (sem fantasia)

Quando eu pego um frasco desses na mão, a primeira coisa que olho não é a promessa da frente. É o rótulo atrás. E, mesmo assim, rótulo não é garantia. Ainda assim, dá para agrupar os ingredientes por intenção fisiológica. Vou comentar os mais frequentes, com o cuidado de não transformar isso em “lista de compras”.

2.1 Ingredientes voltados a circulação e óxido nítrico

L-arginina e L-citrulina aparecem como “precursores de óxido nítrico”. O raciocínio é plausível: óxido nítrico participa do relaxamento do músculo liso e da vasodilatação, etapa central para a ereção. Na prática, os estudos com suplementos orais mostram resultados variáveis, e a resposta depende de dose, formulação, estado vascular do indivíduo e presença de outras doenças. Eu já vi paciente jurar que “funcionou”, e outro dizer que foi dinheiro no lixo. Os dois podem estar dizendo a verdade, porque o efeito é inconsistente.

Extrato de beterraba (nitratos dietéticos) também entra nessa categoria. Em termos de desempenho físico, há literatura mais robusta; para função erétil, a extrapolação é tentadora, mas não é a mesma coisa que tratar disfunção erétil. E atenção: misturar produtos “vasodilatadores” com medicamentos cardiovasculares sem orientação é receita para tontura e queda de pressão.

2.2 Fitoterápicos populares (e por que “tradicional” não é sinônimo de eficaz)

Ginseng (especialmente Panax ginseng) é um dos fitoterápicos mais citados para função sexual. Há estudos sugerindo benefício modesto em alguns desfechos, mas a qualidade varia e a padronização do extrato é um problema real. “Ginseng” no rótulo não garante concentração, pureza ou equivalência entre marcas.

Maca peruana costuma ser vendida como impulsionadora de libido. A literatura sugere possível melhora subjetiva de desejo em alguns estudos, mas não é um “tratamento de disfunção erétil”. Eu costumo explicar assim no consultório: libido é cérebro, contexto e hormônios; ereção é vaso e nervo. Misturar tudo numa cápsula é uma simplificação conveniente para vender.

Tribulus terrestris é campeão de marketing de “testosterona”. Na vida real, os resultados em testosterona sérica são, no mínimo, decepcionantes na maioria dos estudos com homens saudáveis. O que aparece com mais frequência é relato subjetivo de vigor, que pode ter componente placebo, treino, sono, expectativa. Placebo não é xingamento; é um efeito humano. Só não dá para basear saúde nele quando há risco.

2.3 Micronutrientes: quando fazem sentido e quando viram enfeite

Zinco, vitamina D, magnésio e selênio aparecem em quase todas as fórmulas “masculinas”. Eles são essenciais, sim. Deficiências podem afetar energia, humor e, indiretamente, sexualidade. O ponto é que suplementar sem deficiência documentada raramente produz transformação. Eu vejo muito homem comendo mal, dormindo pouco, bebendo demais, e esperando que zinco “conserte” a semana. Não conserta.

Outro detalhe: excesso também dá problema. Selênio em excesso pode causar efeitos adversos; zinco em excesso pode interferir com cobre e causar sintomas gastrointestinais. “Mais” não é “melhor”. É só mais.

2.4 Antioxidantes e “fertilidade”: promessas com meia-verdade

Coenzima Q10, vitamina C, vitamina E, carnitina e outros antioxidantes são vendidos para “qualidade do esperma”. Existe racional biológico: estresse oxidativo pode prejudicar espermatozoides. Só que infertilidade masculina tem causas variadas (varicocele, infecções, fatores genéticos, endocrinológicos, ambientais). Antioxidante não é varinha de condão. Em casais tentando engravidar, eu prefiro metas objetivas e acompanhamento, não uma coleção de frascos.

2.5 “Testosterona booster”: o nome já entrega o problema

Quando um produto promete “aumentar testosterona” sem exame, sem diagnóstico e sem supervisão, eu acendo um alerta. Hipogonadismo (testosterona baixa com sintomas e confirmação laboratorial) é condição médica. O tratamento, quando indicado, é terapia hormonal com monitorização. Suplementos que prometem o mesmo resultado costumam falhar ou, pior, conter substâncias não declaradas.

Pacientes me dizem: “Doutor, eu só queria me sentir como antes.” Eu entendo. Só que o caminho seguro passa por avaliar sono, peso, álcool, depressão, apneia, diabetes, medicamentos e, quando faz sentido, dosar hormônios. Para uma visão mais ampla, veja nosso conteúdo sobre testosterona: mitos, exames e quando investigar.

3) Riscos e efeitos adversos: o lado que o marketing esconde

Suplemento não é sinônimo de inofensivo. E “natural” é uma palavra que já me deu trabalho demais. Cicuta é natural. Cogumelo tóxico também. O risco aqui vem de três fontes: o próprio ingrediente, a dose/combinação, e a qualidade do produto (contaminação, adulteração, rotulagem falsa).

3.1 Efeitos adversos comuns

Os efeitos mais frequentes que eu ouço no consultório são chatos, mas previsíveis: azia, náusea, diarreia e desconforto abdominal (muito comum com aminoácidos e extratos concentrados). Também aparecem dor de cabeça e rubor quando a fórmula tem compostos com efeito vasodilatador. Outra queixa recorrente é insônia ou sono leve, especialmente quando o suplemento vem “temperado” com cafeína, ioimbina, sinefrina ou estimulantes disfarçados.

Há ainda um efeito colateral social: ansiedade. O homem toma algo esperando desempenho perfeito; qualquer falha vira prova de “defeito”. Já ouvi a frase: “Agora eu fico me testando.” Isso piora a função sexual. O cérebro sabota.

3.2 Efeitos adversos graves (raros, mas reais)

Eventos graves são menos comuns, mas existem. Queda importante de pressão, desmaio, palpitações e arritmias podem ocorrer quando há estimulantes, vasodilatadores ou interações com medicamentos. Lesão hepática é uma preocupação com certos extratos e produtos adulterados; o fígado é o grande filtro silencioso, até o dia em que reclama.

Outro cenário perigoso: produtos adulterados com inibidores da PDE5 (como sildenafila ou tadalafila) sem declarar. A pessoa acredita estar tomando “erva”, mas na verdade ingeriu um medicamento. Se ela usa nitratos (por exemplo, para angina) ou tem doença cardíaca instável, o risco de hipotensão grave aumenta. E aí não há “natural” que salve.

Sinais que merecem avaliação urgente: dor no peito, falta de ar, desmaio, batimentos muito acelerados, confusão, icterícia (pele/olhos amarelados), urina escura, dor abdominal intensa, ou reação alérgica com inchaço de face e dificuldade para respirar.

3.3 Contraindicações e interações: onde mora a maior parte do perigo

Interações são o calcanhar de Aquiles desse tema. Homens que usam anti-hipertensivos, antidepressivos, anticoagulantes, remédios para próstata, ou medicamentos para diabetes frequentemente não imaginam que um “suplemento sexual” possa interferir. Pode. E interfere.

  • Anticoagulantes/antiagregantes: alguns fitoterápicos podem aumentar risco de sangramento.
  • Anti-hipertensivos: fórmulas vasodilatadoras ou diuréticas podem somar efeito e derrubar a pressão.
  • Antidepressivos e ansiolíticos: estimulantes e compostos que mexem com neurotransmissores podem piorar ansiedade, causar agitação ou insônia.
  • Medicamentos com nitratos: a combinação com PDE5 (quando presente, declarado ou escondido) é particularmente arriscada.
  • Álcool: além de piorar ereção por si só, potencializa tontura e queda de pressão com certos compostos.

Há também contraindicações por condição clínica: cardiopatia descompensada, arritmias não controladas, doença hepática importante, insuficiência renal avançada, histórico de transtorno bipolar (quando há estimulantes), e suspeita de apneia do sono grave sem tratamento. Eu sei: parece “exagero”. Só que, na vida real, é justamente esse grupo que mais compra promessa rápida.

4) Além da medicina: uso indevido, mitos e confusões públicas

4.1 Uso recreativo e a armadilha do “upgrade”

Existe um uso recreativo claro: homens sem disfunção erétil buscando “melhorar performance” ou reduzir insegurança. Isso aparece tanto com suplementos quanto com medicamentos. A expectativa costuma ser inflada: ereção permanente, orgasmo mais intenso, “resistência” fora do normal. Sexo não é prova de atletismo, embora a internet adore vender como se fosse.

O efeito psicológico é traiçoeiro. A pessoa associa confiança a uma cápsula. Quando não toma, trava. Já ouvi: “Eu não sei mais se sou eu ou o produto.” Essa dependência comportamental é mais comum do que se admite.

4.2 Combinações inseguras: álcool, estimulantes e drogas ilícitas

Uma mistura que eu vejo com frequência é suplemento sexual + bebida alcoólica “para relaxar”. O resultado pode ser o oposto: piora da ereção, mais sonolência, mais risco de hipotensão e, em alguns, taquicardia. Outra combinação problemática é com estimulantes (energéticos, pré-treinos, anfetaminas ilícitas). A lógica do usuário é simples: “um para subir, outro para manter”. O coração não acha simples.

Há ainda o risco de misturar com substâncias recreativas. A imprevisibilidade aumenta porque ninguém sabe a dose real do que foi ingerido, nem a pureza. O corpo vira laboratório. E laboratório sem controle costuma dar errado.

4.3 Mitos e desinformação (os campeões de consultório)

  • “Se é natural, é seguro.” Natural descreve origem, não segurança. Toxicidade e interação não pedem licença.
  • “Aumenta testosterona em qualquer homem.” Testosterona não sobe de forma relevante só porque o rótulo promete. Quando há hipogonadismo, a abordagem é médica.
  • “Se não funcionou em uma semana, é porque preciso de dose maior.” Essa mentalidade empurra para excesso e efeitos adversos. Falha de resposta pode significar diagnóstico errado, produto ruim ou expectativa irreal.
  • “Disfunção erétil é só psicológico.” Às vezes é. Muitas vezes não é só. Vascular e metabólico contam muito, especialmente após os 40.
  • “Suplemento substitui consulta.” Quando a queixa é persistente, a consulta é parte do tratamento — e, em alguns casos, é a chance de detectar doença silenciosa.

5) Mecanismo de ação: por que ereção não é “força” e sim fisiologia

Para entender “Men’s sexual health supplements”, vale entender o básico da ereção. Ereção é um fenômeno neurovascular. Começa com estímulo sexual (visual, tátil, mental), passa por vias nervosas e libera mediadores químicos locais. O principal deles é o óxido nítrico, que ativa uma cascata intracelular aumentando GMPc. Esse sinal relaxa o músculo liso dos corpos cavernosos, permitindo maior entrada de sangue e compressão venosa, o que sustenta rigidez.

Os inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (PDE5) — sildenafila, tadalafila, vardenafila, avanafil — atuam impedindo a degradação do GMPc. Resultado: o sinal dura mais tempo. Eles não criam desejo; eles amplificam uma via que já foi acionada por estímulo sexual. Por isso, quando o homem está exausto, ansioso, deprimido ou sem estímulo, o efeito pode ser menor. A biologia exige contexto.

Suplementos tentam agir “antes” dessa etapa: fornecendo substratos (arginina/citrulina), modulando estresse oxidativo, ou mexendo em percepção de energia e humor. O problema é que a via é longa e cheia de gargalos. Se o gargalo é vascular (aterosclerose), substrato não resolve. Se o gargalo é ansiedade, vasodilatação não resolve. Se o gargalo é sono ruim, nada resolve direito. Eu brinco com pacientes: o corpo não lê rótulo. Ele responde ao que está acontecendo de verdade.

6) Jornada histórica: de tabu a indústria (e por que isso molda o mercado)

6.1 Descoberta e desenvolvimento: quando um “efeito colateral” muda o mundo

A virada moderna da saúde sexual masculina tem um marco: a chegada dos inibidores da PDE5 no fim dos anos 1990, com a sildenafila (Viagra) desenvolvida pela Pfizer. O composto foi estudado inicialmente para angina/condições cardiovasculares, e o efeito sobre ereção apareceu como um daqueles “detalhes” que a ciência não consegue ignorar. A partir daí, a conversa pública sobre disfunção erétil mudou. De piada e vergonha para condição tratável.

Esse sucesso teve um efeito colateral cultural: abriu espaço para um mercado paralelo de produtos “naturais” tentando capturar a mesma demanda, sem precisar passar pelo mesmo crivo regulatório. Eu vi isso acontecer em tempo real: primeiro, poucas opções; depois, prateleiras inteiras. E, com a prateleira cheia, a qualidade média não melhora — só o barulho aumenta.

6.2 Marcos regulatórios: medicamento não é suplemento

Medicamentos como sildenafila e tadalafila passaram por ensaios clínicos, avaliação de eficácia e segurança, farmacovigilância e regras de prescrição. Suplementos, em muitos países, entram por outra porta regulatória, com exigências diferentes. Isso não significa que todo suplemento seja ruim; significa que o nível de evidência e controle é outro. Quando o consumidor não entende essa diferença, vira presa fácil de promessa absoluta.

6.3 Evolução de mercado: genéricos, acesso e a sombra das falsificações

Com o tempo, patentes expiram e genéricos entram. Isso ampliou acesso a tratamentos eficazes para disfunção erétil, reduzindo custo em muitos lugares. Ao mesmo tempo, aumentou a circulação de falsificações e “produtos híbridos”: suplementos adulterados com fármacos, comprimidos falsos vendidos como originais, e marketplaces onde ninguém sabe quem fabricou o quê.

Na prática, o homem que só queria discrição acaba se expondo a um risco maior. Ironia cruel.

7) Sociedade, acesso e uso no mundo real: o que eu vejo fora do laboratório

7.1 Consciência pública e estigma: a parte que ninguém ensina

Disfunção erétil ainda mexe com identidade. Muitos homens interpretam como “falha moral” ou “fim da masculinidade”. Eu escuto isso com frequência. E, quando a pessoa acredita nisso, ela evita consulta, evita conversa com a parceira(o), evita exame. Aí o suplemento vira uma solução silenciosa. Só que silêncio não trata diabetes, não trata hipertensão, não trata depressão.

Uma pergunta que eu faço e que quase sempre muda o rumo da consulta é: “Isso começou quando?” A resposta costuma apontar para um evento: luto, demissão, nascimento de filho, mudança de turno, ganho de peso, início de antidepressivo, piora do ronco. Sexualidade é um termômetro. Ignorar o termômetro não baixa a febre.

7.2 Produtos falsificados e riscos de compra online

Comprar “Men’s sexual health supplements” online parece prático. Só que a cadeia é opaca. O risco não é só “não funcionar”. É funcionar do jeito errado. Produto adulterado pode conter inibidor de PDE5, estimulantes, ou contaminantes. Dose pode variar entre lotes. Ingrediente pode não existir. E, quando dá reação, ninguém assume.

Orientação prática, sem moralismo: desconfie de promessas de efeito imediato, de “resultado garantido”, de rótulos sem fabricante claro, de listas enormes de ingredientes com nomes exóticos, e de produtos que parecem “medicamento disfarçado”. Se houver qualquer doença crônica ou uso de remédios, a conversa com profissional de saúde antes de usar é uma medida de segurança, não um luxo.

7.3 Genéricos e custo: informação para não cair em narrativa

Quando o assunto é disfunção erétil, muita gente alterna entre suplemento caro e medicamento eficaz por medo de “dependência” ou por achar que genérico é inferior. Genérico, quando aprovado por autoridade sanitária, precisa demonstrar equivalência. Isso não transforma medicamento em brinquedo; só coloca o debate no lugar certo: eficácia e segurança com acompanhamento.

Eu também vejo o oposto: homens usando medicamento de forma desorganizada, sem avaliação cardiovascular, e depois culpando o remédio por sintomas que já estavam ali. A solução é menos heroísmo e mais método.

7.4 Modelos de acesso (prescrição, balcão, farmacêutico): varia muito

Regras de acesso a medicamentos e suplementos mudam conforme o país e até conforme a região. Em alguns locais, há modelos com maior participação do farmacêutico; em outros, prescrição é obrigatória. Essa variação influencia o comportamento do consumidor e o tamanho do mercado informal. Onde há barreira e estigma, cresce o “atalho” online. E o atalho, muitas vezes, cobra pedágio em forma de risco.

Se você quer uma visão mais ampla de segurança, temos um guia sobre como reconhecer produtos de saúde falsificados. Não é leitura divertida, mas é útil.

8) Conclusão: onde os suplementos cabem — e onde eles atrapalham

“Men’s sexual health supplements” não são uma entidade única. Alguns ingredientes têm plausibilidade e podem ter papel limitado em contextos específicos, especialmente quando há deficiência nutricional, estilo de vida em ajuste e expectativas realistas. Outros são apenas ruído. E existe um grupo francamente perigoso: produtos adulterados, estimulantes agressivos e fórmulas que prometem efeito farmacológico sem transparência.

Quando a queixa é persistente, a abordagem mais inteligente costuma ser a menos glamourosa: avaliar sono, estresse, álcool, atividade física, peso, saúde cardiovascular, medicamentos em uso e, quando indicado, hormônios e glicemia. Se houver disfunção erétil clínica, tratamentos com evidência — como os inibidores da PDE5 (sildenafila, tadalafila, vardenafila, avanafil) — entram como opção médica, com contraindicações e interações que precisam ser respeitadas.

Este artigo é informativo e não substitui consulta médica. Se você tem dor no peito, falta de ar, desmaios, sintomas depressivos importantes, ou disfunção erétil nova e persistente, procure avaliação profissional. Sexualidade é saúde. E saúde merece mais do que promessa em cápsula.